
O que significa quando é falado que não existem casos na clínica, mas sim sujeitos?
Isso significa que não existe o genérico na clínica, o que temos é o sujeito do inconsciente submetido a alguns fenômenos, sob os quais é necessário que o psicanalista os conheça a partir de um letramento profundo. Ou seja, tenha um saber sobre esses fenômenos, porém não defina aquele sujeito em análise a partir deles. Estudar o fenômeno é não saber nada sobre o sujeito submetido a eles.
O que seriam esses fenômenos?
Um exemplo seria a violência. Violência é o fenômeno que pode ser que o sujeito que esteja submetido a ele busque a análise, porém na clínica, nada se sabe sobre esse sujeito. Por isso existe uma complicação ao falar “atendimentos a pessoas vítimas de violência”, visto que coloca um conhecimento de que já se sabe sobre o sujeito que busca o atendimento, o que não é o que a escuta psicanalítica propõe. O fenômeno é específico, mas o sujeito é singular.
Explicado isso e dado que a constituição subjetiva é feita pela linguagem, a cada época terão discursos que irão atravessar os sujeitos e serão parte, também, de sua constituição subjetiva. No exercício da parentalidade, quando se cria alguém, transmite-se os ideais de uma época, por meio do filtro de experiência que é singular de um e que vai capturar esse filho de uma forma única. Isso significa que a linguagem nos atravessa, mas não sem a nossa resistência e, ao mesmo tempo, só se sabe falar a língua aprendida. É o entroncamento dos discursos falados em uma certa cultura, em uma certa época com os discursos que dizem respeito a linhagem familiar de cada um e a transmissão transgeracional.
No exercício da parentalidade a pessoa estará se oferecendo narcisicamente ao outro, isto é, esse outro fará parte da linhagem daquele que está exercendo a parentalidade, receberá um nome e quem está nesse exercício assumirá, perante a esse outro (filho), um certo lugar de ascendência, proteção e cuidado. Em contrapartida, esse filho também dará um lugar, um lugar de pai, de mãe. É um lugar narcísico, social e subjetivo.
Assim, chegamos ao amor. O amor é uma palavra que todo mundo usa, mas que possui lastros muitos distintos, a partir do léxico familiar e da história de uma época. O amor é aquilo que aguenta do desejo que ele seja e o que ele é. Na parentalidade é visto isso no discurso em que se coloca “seja uma boa filha, seja um médico”, porém isso é algo endereçado a esse filho, mas não necessariamente será aceito e é também necessário que esse filho recuse o que é endereçado a ele, afinal esse projeto é originado daqueles que estão no exercício da parentalidade. Esse filho será o que puder e quiser ser.
De acordo com Teperman, Garrafa e Iaconelli (2020), a parentalidade é um termo guarda-chuva, visto a partir dos discursos e condições oferecidas pela geração anterior, para que uma nova geração se constitua subjetivamente em uma determinada época. Desse modo, os discursos atuais correspondem a uma sociedade neoliberal, felicidade sem problemas e mal-estar, sem restos. E esse é o discurso de incide sobre os pais que também vão responder de um lugar muito específico de sua história, que será transmitido ao seu filho que fará alguma coisa com isso.
Na atual época da felicidade desmedida, o principal sintoma é a depressão para dar uma resposta a felicidade imposta que é impossível de existir. Existem felicidades pontuais, porém não existe o platô de felicidade. Estarmos tão infelizes como se pensa com as depressões atuais pode-se relacionar com a negação do que Freud chama de infelicidade ordinária, que é estruturante para nós.
Diante do exposto, é de suma importância os estudos sobre os discursos de uma época, mas no momento em que chega na clínica, é necessário o não saber sobre o sujeito para justamente ser possível a sua escuta. Os fenômenos podem se repetir, todavia os casos são um a um. Por isso a importância da não generalização.
REFERÊNCIA
TEPERMAN, D.; GARRAFA, T.; IACONELLI, V. Parentalidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.




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