
Quando temos um discurso fechado, onde é visto a naturalização de certas questões, há de se questionar. Ao sustentar ideologias e colocá-las no campo da natureza, impossibilita a transformação. Um exemplo disso é quando vamos pensar na construção de papéis de gênero, algo que está sendo extremamente veiculado nas redes sociais, principalmente no que tange a “esposa troféu” e/ou “energia masculina, energia feminina”. O amparo desses discursos é o argumento do natural, algo como “é natural que isso funcione dessa maneira”. Contudo, o campo do natural já é simbólico.
Aquilo que podemos chamar de natureza, já está no campo da linguagem, no campo do significante. Isso acontece, porque a sociedade passa por uma construção simbólica que vai colocando certas coisas em certos lugares, a ponto de acontecer uma transmissão em que há identificações entre o feminino e o cuidado, por exemplo.
O argumento mais forte, mas ao mesmo tempo o pior, é aquele que olhamos para o campo da natureza, porque não há a possibilidade de debate. Quando é falado “é natural que uma mulher cuide da casa, enquanto o homem deve ser o provedor”, é possível entender que isso que foi dito no sentido de que essa ideia foi constituída há tantos anos historicamente, que acaba produzindo um efeito de que é como as coisas devem funcionar, afinal é natural.
Todavia, esse argumento não se sustenta por tanto tempo. No momento em que a pessoa passa a ter novos conhecimentos, leituras, contato com outras culturas e pessoas, é visto que esse lugar de natural, passa a ser desnaturalizado, já que em algum lugar isso é diferente. Afinal, o que é o natural? Se falamos sobre uma construção de algo, já mostra que não nasceu daquela forma, foi construído dessa maneira.
Quando consideramos a psicanálise neste viés, é dado que o papel do analista tem que ir na contramão da naturalização. Na psicanálise, temos uma grande produção teórica em que reduz a família ao operador do Complexo de Édipo. Não há como negar que esse aspecto ambientalista do Complexo de Édipo causou alguns problemas para a psicanálise, como a normatização, isto é, como se a ausência de um pai pudesse produzir uma espécie de adoecimento na relação simbólica entre mãe e filho.
Apesar de já sabermos que houve uma nova teorização sobre o Complexo de Édipo que não reduz a uma perspectiva ambientalista, o que isso demonstra é que não é possível a produção de uma teoria apartada da ideologia daquele que a apresenta. A leitura que nós fazemos, o modo que teorizamos, estão repletas de algumas ideologias. Ou seja, se eu suponho que uma saúde psíquica só se constrói a partir de uma família heteronormativa, isso carrega uma noção de que para um sujeito se constituir é necessário uma família nuclear. Mas, se eu me abro um pouco e penso que o que importa para uma saúde psíquica não são exatamente os personagens (pai, mãe, avó…), porém outros elementos que tocam a amorosidade, limites, possibilidade de sustentar frustrações, como que essa família, esse grande Outro vai se oferecer desse lugar, independentemente dos personagens que ali estão.
Isso atinge diretamente a escuta do analista. Uma posição normativa em que determina que, por exemplo, uma família vai ser saudável ou não, antecipando algo que não se sabe, é o contrário do lugar de um analista. Nem toda família é uma promessa de amparo.
A escuta do analista deve estar em um lugar oposto a naturalização e a normatização. Quando estamos impregnados pelo nosso registro imaginário, pelas nossas representações, teremos uma clínica preconceituosa, no mínimo.




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