Imagem: "A Redenção de Cam", Modesto Brocos

Se enganam àqueles que consideram as transmissões como um campo exclusivo da genética, isso é uma redução da concepção humana ao corpo biológico. Há algo que atravessa o sujeito que está para além dos genes, da biologia. É aquilo que chamamos de transmissões por texto.

Esse texto, também pode ser chamado de transmissão de significante. Ele não é linear, não é necessariamente bem organizado, é um texto com buracos e interrogações. É importante frisar que essas transmissões estão longe de se sustentarem apenas a partir de um verbo, daquilo que foi dito, mas principalmente a partir daquilo que não foi dito, isto é, dos buracos. Por meio desses buracos que se darão as interpretações.

É como aquilo que ouvimos na clínica, um analisante fala “o que foi aquele olhar da minha mãe quando eu estava brincando, um olhar que não tinha visto antes?” ou então “o que foi o volume da voz do meu pai, ao chamar o meu nome, enquanto em estava correndo com meus amigos? Parecia estar com raiva”

Esse “parecia”, essa interpretação textual não acontece de imediato, leva um tempo. Em um primeiro momento, há uma espécie de estranhamento diante desse texto. A transmissão acontece por vários textos que não são exclusivos do âmbito familiar, eles perpassam a escola, igreja, vários lugares que esse sujeito circula e que será atravessado por esses textos e fará interpretações deles.

Contudo, por que a família acaba sendo um objeto privilegiado desses textos?

A família é aquilo que produz a nossa primeira entrada na cultura, aquilo que a psicologia chamará de socialização primária: como se comportar, como agir, quais são os valores, qual sua concepção de amor, religião e assim por diante. A família é a primeira instância, esse primeiro espaço que nos constituímos como sujeito e nós precisamos dela para tal.

A questão que fica é como que os pais lidarão com isso que acontece fora do âmbito familiar?

A psicanálise se afasta da concepção causalista da transmissão, ou seja, uma espécie de causa e efeito de comportamentos e construções subjetivas: ele é assim, porque o pai/mãe é assim. É claro que, ao nos constituirmos em determinadas famílias, existirão aspectos identificatórios. Entretanto, reduzir a transmissão onde há explicações de alguém ser como é por conta de uma família dita como “desestruturada” – entre aspas, visto que não há como definir o que seria uma família estruturada e desestruturada -, qual seria o trabalho de uma escuta analítica?

A análise possibilita o reposicionamento do lugar que o sujeito supõe que recebe do Outro. Quando um sujeito em análise conta sobre a família, também diz sobre o lugar que supõe que ocupa nessa família e é a partir disso que há o trabalho analítico. Em que o passado não é uma instancia fechada, é algo movimentável. Então é a possibilidade de produzir novos textos sobre esse pai, mãe, avó, irmão.

É por isso que se fala do passado em análise. Não porque analistas gostam do passado ou são dotados de nostalgia, mas porque a partir dessa fala, o passado se reatualiza no presente, viabilizando uma movimentação que antes não era possível. Uma nova forma de se relacionar com aquilo que aconteceu.

Transmitir e ensinar não são a mesma coisa. Ensinar exige uma intencionalidade em passar uma certa significação, já na transmissão não há uma intenção consciente ou possibilidade de mestria. Aquilo que deixamos depende de fatores que não controlamos por completo. Em tudo aquilo que dizemos, há uma dupla intenção: aquilo que queríamos transmitir e aquilo que transmitimos sem sabermos.

Pode-se compreender a transmissão como um movimento, algo se perpetua naquilo que se transmite. Muitas vezes, aquilo que transmitimos para o outro nos causa surpresa, afinal a hiância é uma marca da transmissão, em que não sabemos o que exatamente se transmitirá.

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Sobre a imagem: A imagem representa uma pintura a óleo sobre tela do artista Modesto Brocos e ela remete ao embranquecimento da população, como algo a ser almejado. A escolha dessa imagem está diretamente ligada a história do Brasil, onde a organização estrutural foi pautada no branqueamento, isto é, na valorização dos brancos englobando além do biológico, o ideal de civilização, dominância e avanço social.

Revisitar esse passado é uma forma de dizer que precisamos nos relacionar com o ausente e não simplesmente apagá-lo. Para que seja possível uma mudança no presente, uma maneira de construir uma nova modalidade de futuro e que isso se transmita pelas próximas gerações.

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