
Lacan nos convida a considerar o discurso, a palavra dentro do discurso. A sair da exatidão e ir para a verdade. A verdade que vem da ordenação da cadeia significante, a qual o sujeito está submetido. Há algo relacional. É a verdade estruturada como uma ficção, uma história que organiza uma verdade que o sujeito apresenta como dele.
A história de cada um é contada a partir dessa verdade e o que interessa ao analista não é a exatidão dos fatos, mas como essa verdade foi estruturada, a partir de qual relação intersubjetiva.
Pensando na estrutura, considerando o que está em relação, o inconsciente não é localizável, o inconsciente não é uma propriedade. O inconsciente é o discurso, isto é, precisamos de um discurso para ter acesso ao inconsciente.
No Seminário 2, Lacan diz que o inconsciente é o discurso do outro, é o discurso do circuito ao qual o sujeito está integrado. Isso significa que o inconsciente é relacional. É aquilo que media a relação. Ele faz parte daquilo que está sendo observado, daquilo que está sendo construído. “A fala, na medida em que é verbalizada, ela vai sendo realizada” (frase de Luciana Salum, no grupo de estudos do seminário sobre “a carta roubada”).
Levando isso em consideração, o inconsciente não é determinado por algo, não é um lugar, não corresponde a um baú de memórias guardado nas profundezas da mente. Tampouco pode-se dizer que o inconsciente se localiza na superfície, afinal estaríamos cometendo o mesmo erro: localizando-o. É um equívoco pensar que o processo de análise é revelar esse inconsciente.
Pelo contrário, o inconsciente é associado e criado no processo de mediação entre o analisante e o analista. É por isso que em Lacan, o trabalho analítico é o futuro anterior. Ou seja, não é condizente ao tempo cronológico. O tempo cronológico é o tempo imaginário. O tempo trazido pela psicanálise rompe com a lógica imaginária: é um passado que se atualiza, o tempo que não passa diante de certos acontecimentos. É aquilo que, a partir das construções em análise, o sujeito consegue mudar a sua percepção do passado.
Pensar assim rompe com a ideia de propriedade “o meu inconsciente”, o inconsciente é relacional. É o sujeito do inconsciente. Um sujeito que não é proprietário da sua existência, do seu inconsciente. Um sujeito que se afasta do centro.
Imagem: obra de Emerson Zalotti.



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