Badinter, em seu livro “Um amor conquistado: o mito do amor materno” se debruça sobre estudos, que parte da pergunta “será o amor materno um instinto, uma tendência feminina inata, ou depende, em grande parte de um comportamento social, variável de acordo com época e os costumes?” (p. 1).

Ela mostra que em dado momento da história, o conceito de amor de mãe era outro e acrescenta que ao levar isso como uma exatidão, é difícil explicar “as falhas do amor materno, como essa frieza e essa tendência ao abandono” (p.20).

Caso existisse o “instinto materno”, como explicar a época em que as crianças morriam a partir de negligência e descaso, sem que ninguém se abalasse com isso?

Winnicott, em seu livro “Os bebês e sua mãe”, escreve:

“(…) a mãe entra numa fase, uma fase da qual ela comumente se recupera nas semanas e meses que se seguem ao nascimento do bebê, e na qual, em grande parte, ela é o bebê, e o bebê é ela. E não há nada de místico nisso. Afinal de contas, ela também já foi um bebê, e traz com ela as lembranças de tê-lo sido; tem, igualmente, recordações de que alguém cuidou dela, e estas lembranças tanto podem ajudá-la quanto atrapalhá-la em sua própria experiência como mãe.” (p. 4).

Vera Iaconelli no canal do Youtube do Instituto Espe (2023) faz uma colocação sobre essa passagem de Winnicott, indagando que se a condição para poder cuidar de alguém é ter sido um bebê, existe alguém que não foi bebê? Isso significa que são as experiências de cuidado que recebemos, que são atualizadas no cuidado com o bebê e isso independe do gênero, está posto a todos.

Maíra Moreira em seu livro “Freud e o casamento”, levanta a questão do cuidado nos relacionamentos afetivos monogâmicos e heterossexuais. Uma das coisas apontadas em seu texto é sobre a relação do cuidado com o feminino, sendo a atribuição da hiperfeminilidade e maternidade como parte de um programa higienista, uma vez que a natalidade envolve interesses econômicos, sociais e políticos.

Assim, o instinto está no campo da natureza e tudo aquilo que podemos dizer que está na natureza, também já está no campo da linguagem. Isso acontece, porque a sociedade passa por uma construção simbólica que vai colocando certas coisas em certos lugares. Nesse caso, a ideia de instinto materno é fruto de uma construção social pautada em interesses econômicos e políticos.

REFERÊNCIAS:

BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985. [Tradução: Waltensir Dutra].

INSTITUTO ESPE. Psicanálise e maternalismo. YouTube, 26 set. 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/live/irnBI8J62CA?si=i315dYmxbugkLap8. Acesso em: 24 abr. 2025.

MOREIRA, M. M. Freud e o casamento: O sexual no trabalho de cuidado. São Paulo: Editora Autêntica, 2023. 

WINNICOTT, D.Bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

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