
Na análise, aquele que fala também escuta. A experiência psicanalítica, em sua essência, não se configura como um espaço onde alguém busca conselhos ou direcionamentos sobre como viver. Mas, como um encontro marcado consigo mesmo, mediado pela presença do outro.
O que buscamos quando nos dirigimos a análise? Geralmente, chegamos porque houve uma ruptura – seja na realidade que nos sustentava ou na imagem que tínhamos de nós mesmos. Essa ruptura revela que tanto a realidade, quanto o Eu são construções frágeis, representações que são muito difíceis de serem sustentadas. A análise não visa fortalecer esse Eu, tampouco restaurar essa ruptura da realidade.
Aliás, privilegiar o Eu seria reduzir a clínica à dimensão puramente imaginária. Uma clínica imaginária seria aquela baseada exclusivamente na representação que o sujeito tem de si e do mundo. A crítica está no fato de que, mesmo que haja o fortalecimento do Eu, inevitavelmente falhará, já que a vida, por si só, dará notícias de que essa representação não se sustenta. O Eu não é uma unidade fixa e cristalizada. Isso porque a significação do Eu depende do local onde o sujeito está situado, dos seus interlocutores, do que vem antes e depois na cadeia significante. A palavra que define o sujeito não significa a mesma coisa a depender do lugar em que ele ocupa. Assim, a análise nos convida a reconhecer a impossibilidade dessa completude.
Não vamos à análise para contar segredos, embora possamos fazê-lo. Vamos para poder dizer a nós mesmos algo que só se torna possível mediante a presença do outro. A possibilidade de uma análise não depende das credenciais do analista, de seus diplomas ou de seu tempo de formação, mas sim da transferência e do manejo dela.
Na experiência psicanalítica, a fala ganha valor de escrita. Quando dizemos algo diferente do que pretendíamos dizer, o que importa é o que foi dito, não o que queríamos ter dito. O analista é esse leitor que aponta para aquilo que foi dito com o valor de escrita. Fazer análise muda a vida, justamente porque modifica a nossa relação com a linguagem e, consequentemente, com a própria vida. Afinal, a nossa vida se dá pela forma que nos narramos, narramos as nossas vivências.
Análise diz sobre um se dar conta, aquilo que já sabíamos de alguma maneira, sem saber que sabíamos. É um saber que não se sabe. O inconsciente como discurso do outro, assim como Lacan nos ensina. É na relação com o outro, um circuito que estamos integrados, o discurso que nos foi legado e que estamos condenados a reproduzir e transmitir.
O trabalho de análise é elaborar o luto por quem pensávamos que iríamos ser, por quem pensávamos que éramos, pela vida que pensávamos ter e, em última instância, pelo que imaginávamos ser a própria vida. Não chegamos ao mundo como uma folha em branco, mas como uma folha toda desenhada pelos ideais dos outros. O primeiro narcisismo, a primeira imagem que fazemos de nós mesmos é efeito do quanto compramos isso que o outro coloca para nós. Mas, é importante dizer que sem isso, sem sermos falados pelo outro, não existiríamos. Esse lugar que foi colocado marca um imperativo de existência. Isso que você é, você pode deixar de ser ou isso diz de você mais do que você diz disso?
Enquanto ficamos presos nessa imagem de completude, não conseguimos escrever nem viver bem, porque escrever e viver bem são efeitos da dimensão da falta. É só na medida em que conseguimos nos desprender e sustentar a descompletude que é possível escrever – não apenas no sentido literal, mas escrever a própria vida, sendo autores dela.
A análise nos ensina que há uma dimensão daquilo que dizemos que vai além da história que contamos. Quem permanece em análise se depara com a descoberta de uma nova forma de estar no campo da linguagem. A psicanálise é uma experiência de linguagem porque não tem tanto a ver com o conteúdo, mas com a forma.
O que fazemos quando fazemos análise? Não descobrimos nada que esteja lá encoberto, aguardando o grande dia. Não há nada coberto a ser revelado. O que há é uma escrita vacilante, passível de inúmeras mudanças que surgem no nascer de uma análise. Uma inquietante maneira do sujeito se apropriar de seus rabiscos.
Aprendemos a escrever numa análise não porque o analista nos ensina, mas porque aprendemos a fazer da falta causa para algo. Em última instância, a análise serve para nos mostrar que não somos senhores em nossa própria casa, que o Eu não é tão fixo assim, que os predicados que nos definem dependem da posição que ocupamos na cadeia simbólica. Serve para incluir nossa representação em uma estrutura, para reconhecer que essa significação depende do local onde estamos.
A análise serve, portanto, para inventarmos um modo de escrever o texto de nossas vidas, reconhecendo que somos autores dela, mas não sem o outro. Serve para sustentarmos a descompletude necessária para viver e escrever bem. Serve para rir de nós mesmos e para fazer da falta causa para algo. Serve para nos mostrar que o inconsciente não é nosso, mas se constitui na relação com o outro. Serve, por fim, para sermos honestos com nós mesmos, para nos depararmos com aquilo que, de cada um de nós, não está podendo ser sabido.



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