
O texto “O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada”, de Jacques Lacan, está presente no seu único trabalho publicado em vida, chamado “Escritos”. É preciso mencionar que antes mesmo de iniciá-lo, tem uma passagem onde está descrito “1940-1944, significativos para muita gente” (1945, p. 197). Esse é um texto de 1945, ou seja, é um texto pós-guerra. Os anos de 1940 a 1944 corresponde a época em que a Alemanha nazista dominou o sul da França, em que houve uma violência direta e simbólica muito expressiva. E, justamente nesse texto, é trabalhado uma ideia de reconstrução dos pactos coletivos que pode ser lido como uma obra a serviço de um pacto civilizatório, contra a barbárie, no declive da Segunda Guerra Mundial. Isso significa a lógica da segregação, do fechamento e que a moral disso é que só nos libertamos com o outro, a lógica do coletivo.
Lacan no início do texto retrata um sofisma onde existem três prisioneiros e um carcereiro que lhes oferece a liberdade, caso passsem por uma prova. Nessa prova haveriam três discos brancos e dois pretos, que seriam presos nas costas dos prisioneiros e eles deveriam adivinhar a cor do disco que estaria em suas costas. Porém, o ponto chave é que os discos pretos não seriam utilizados, apenas os brancos e os prisioneiros não saberiam disso.
O que Lacan está tentando ilustrar com esse sofisma é, primeiramente, uma lógica coletiva e, em segundo lugar, a lógica do reconhecimento. O reconhecimento só pode ser coletivo, tendo em vista que o ponto de partida de cada sujeito é o desconhecimento de si. A construção de algo da ordem do conhecimento de si parte da relação com o Outro. Isso significa que, fora dessa relação, não há como saber quem é.
No texto é falado que deverá haver uma lógica que cada prisioneiro deverá explicar sobre como chegou à conclusão, todavia, não tem exatamente uma lógica, é uma espécie de risco. Isso acontece porque o ponto chave é que não existem discos pretos na prova. Logo, os prisioneiros só podem se reconhecer como disco branco, a partir dos outros dois discos brancos que veem, isto é, a lógica coletiva é uma lógica do reconhecimento.
São distinguidas três formas temporais: o instante de olhar, o tempo para compreender e o momento de concluir. Lacan vai explicá-las por meio dessa situação, caso os discos pretos fossem utilizados. O instante do olhar pode ser exemplificado por meio da situação em que o prisioneiro, estando diante de dois discos pretos, conclui que possui em suas costas um disco branco. Isso corresponde a imediaticidade. Vê e conclui, não tem mediação, é uma certificação automática do que aquele sujeito é. Essa é uma forma de entender o conhecimento, as relações, que de um lado tem o sujeito, do outro o objeto, e o sujeito se apropria e domina o objeto, imediatamente.
O tempo de compreender, é quando um deles vê um disco preto e outro branco. A partir disso, surge a dúvida: se o prisioneiro que está com o disco branco, está vendo um preto e, ainda não saiu, logo pensa “não sou o preto, uma vez que se ele tivesse visto dois pretos, teria saído imediatamente.”
Assim, o fato do Outro não agir que é dada a resposta, por isso se chama o tempo de compreensão. É o tempo que aparece na lógica das relações, em que as pessoas dizem coisas, em que o sujeito se encontra naquilo que foi dito, mas não se dá conta de imediato e, às vezes, demorará anos para compreender. É o tempo em que a ação do sujeito depende do tempo do Outro e como aquele sujeito lê essa temporalidade desse Outro.
O momento de concluir corresponde a situação em que os três prisioneiros têm em suas costas discos brancos. A solução passa por um tempo de certeza e depois perda de certeza e recuperação dessa certeza. É como o sujeito chega nessa certeza por meio de seus equívocos, dos obstáculos, daquilo que não pode saber imediatamente. É o que dá forma lógica para o encerramento das sessões, para a formação dos sintomas, para a fantasia e tem relação com se precipitar num ato destituído de saber, de certeza.
É como se fosse uma certeza antecipada e isso se mostrará inicialmente como um equívoco, mas logo em seguida o sujeito pode recuperar essa certeza, no momento em que atravessa a forma ontológica da angústia, que tem ligação com o instante de concluir. E, desse modo, fazendo a analogia com a situação dos prisioneiros, é o momento em que se apresenta ao carcereiro, de tal forma que todos se libertam juntos.
O momento de concluir é o resultado dos dois tempos anteriores e é um momento coletivo, por excelência. Isso significa que os prisioneiros são levados a concluir que possuem discos brancos pelo tempo de demora da reação dos outros. Assim, se direciona a porta e, nessa medida, os outros dois se dirigem também, porque chegam a mesma conclusão, coletivamente.
Apesar de não ser um texto clínico, diz muito sobre a clínica. O que Lacan objetiva com esse sofisma é alertar, por exemplo, sobre o tempo de interpretação. Lacan discordava da ideia de que a boa interpretação é aquela que te leva a concluir imediatamente, o tempo de reação da boa interpretação nunca é imediato. Uma analogia simples é quando o sujeito, que está em meio a multidão, ouve alguém gritando fogo. Nesse momento, ele não terá o tempo de compreender, ele apenas agirá pela imediaticidade de correr. O que é o contrário do efeito da boa interpretação.
Para Lacan, nada é mais distante de um efeito de análise do que a instantaneidade da conclusão. Tudo que fecha muito rapidamente o campo do sentido, não interessa para a clínica. Isso leva a uma reflexão sobre os tempos atuais, onde somos convocadas a responder tão apressadamente sobre as coisas, vivemos em um ritmo de aceleração de conclusões que é assustador. É necessário ter opinião sobre tudo, de forma rápida e fazer com que os outros concordem com essa opinião que nem foi formulada. O tempo de reflexão está encurtado na imediaticidade de ver, da percepção.
No momento em que é ponderado sobre o instante de ver para o momento de compreender, Lacan assegura, de alguma forma, a temporalidade da própria reflexão, do exame lógico, do teste de possibilidades. É o momento em que o sujeito tentará concluir quem é, a partir do exame e da reação dos outros.
O momento de concluir é, também, o lugar da interpretação que se realiza como ato. O sujeito se dá conta de uma experiência que estava sendo nomeada. Isso pode ser exemplificado pelo conceito de Lacan sobre palavra plena, por exemplo, quando o sujeito se escuta em análise.
É neste viés que pode-se pensar sobre as interrupções durante as sessões. O instante de ver, o tempo de compreender e o momento de concluir são formas temporais em que vão organizar tanto a constituição do sujeito, nas relações primárias com os agentes de função materna e paterna, com a falta, está em jogo isso e não uma lógica cronológica, de tempo contínuo, homogêneo. Esse não é o tempo do sujeito, é a oposição ao tempo cronológico.
Se o tempo do sujeito fosse contado como tempo cronológico, seria tomado como mera duração, empobrecido como experiência. O tempo não é achatado nessa linha contínua, ele subdivide-se em dois campos de evidências: subjetiva e objetiva. Não há como exigir que cumpra as expectativas projetadas nele, mas também não há como se situar no tempo passivamente como se ele pudesse decidir por você. Isso nos permite olhar para o tempo com maior generosidade.
O raciocínio que o Lacan trouxe para clínica, é pensar a função desse tempo para que seja possível articulá-lo ao saber produzido na análise. É uma forma de fazer algo que ajude o paciente em sua relação com o inconsciente. Quando existe a interrupção na sessão, é uma forma de convite ao paciente para que trabalhar, elaborar, escutar o que foi falado. O corte, no fim, pode ser considerado como uma gentileza de comunicar que a sessão chegou em seu ápice, não há motivos para perder tempo. É uma forma de expressar para que isso seja levado a sério, para a pessoa se escutar.
Há um trecho no texto em que está descrito que “o [eu] sujeito da asserção conclusiva, isola-se por uma cadência de tempo lógico do outro, isto é, da relação de reciprocidade” (LACAN, 1945, p. 208). A cadência é uma dinâmica do tempo que vai ensinando como agir com o outro, a partir do jeito que ele reage. É uma intimidade pacientemente construída. A cadência dará a letra de como o outro deve reagir e, a partir disso, o sujeito tomará suas ações e decisões.
Prosseguindo, quando o sujeito passa muito tempo para compreender, pode chegar a sentir que não aguenta mais pensar naquilo e isso é um sinal que o momento de concluir se aproxima. As indecisões podem ser inúmeras, mas chega uma hora em que não há possibilidade de permanecer no tempo de compreender, é necessário concluir. Nos casos em que o momento de concluir se antecipa, Lacan menciona (1945, p. 208) “o tempo de demora que o apressa em direção à saída” é o caso de que se o sujeito não tenha captado esse momento é, também, função da análise colocar isso ao sujeito, em apontar a ele que aquela decisão que acha que ainda não decidiu, talvez já esteja decidida, o que falta é assumi-la.
Isso se relaciona diretamente com a asserção ser um juízo que se consome em ato. A paralisia do sintoma neurótico, o gozo da indecisão, que o faz analisar as opções até o infinito, na ilusão de que pode fazer escolhas mais precisas e perfeitas, mas essas escolhas não existem. Escolher é incluir as não escolhas nessa escolha. E quando isso acontece, o tempo de compreensão prolonga mais do que a própria compreensão exige, então está na hora de concluir.
A grande questão colocada no sofisma do texto é que a sua verdade só será confirmada pela presunção e não através de uma lógica concreta. É arriscar, o risco tomado coletivamente, é se dirigir até a porta e buscar ser livre. A liberdade se decide em ato coletivo e possui dimensão de risco. Arriscar é fundamental para a clínica e o risco é o oposto da conservação.
Essa coletividade não é a massa, não possui o comportamento regressivo e alienado. Coletividade é uma decisão de todos os agentes, em conjunto. A coletividade é reciprocidade e não comportamento de manada. Lacan disserta que “nessa corrida para a verdade, é apenas sozinho, não sendo todos, que se atinge o verdadeiro, ninguém o atinge, no entanto, a não ser através dos outros” (1945, p. 212). É sozinho que se atinge o verdadeiro na dimensão desalienada da verdade, mas não se atinge apenas sozinho, são necessários os outros.
Isso significa que não se trata de excluir a dimensão individual da verdade, vai haver sempre a medida individual, não no sentido solipsista, mas naquele de que é necessário conquistar alguma independência, autonomia relativa em relação ao outro, para que se possa atingir o verdadeiro. É preciso frisar que essa autonomia é sempre relativa, isto é, nunca absoluta. Ninguém atinge o verdadeiro senão por meio dos outros. Quem decide no final das contas, é o sujeito, porém a confirmação da verdade dessa asserção se dá por meio dos outros, com os outros. Por isso a lógica da reciprocidade é, também, uma lógica da coletividade.
Autora: Laísa Ferreira Lins Lima
Data: 23/05/2024.
REFERÊNCIAS:
Lacan, J. (1998). O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada: um novo sofisma. In J. Lacan. Escritos(V. Ribeiro, trad., pp. 197- 213). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1945).
Aula 11 do professor Rafael Alves Lima no curso “Jacques Lacan: clínica, teoria e política” – Instituto Gerar.




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